Como famílias empresárias podem enfrentar a maior transferência de riqueza da história humana?

Gustavo Sette da Rocha, Setembro de 2020

O dinheiro e o poder do mundo estão mudando de geração a uma velocidade acelerada e em valores estratosféricos, o que pode trazer diversos impactos políticos, sociais e econômicos ao mundo nos próximos anos. Essa é a conclusão da leitura combinada de dois artigos publicados na semana passada, um na Forbes e outro na The Economist, que comentarei aqui e incluirei a minha visão e um panorama de tais impactos nas famílias empresárias.

Vale antes uma breve contextualização para explicar o que são as gerações mencionadas em tantos artigos hoje em dia:

Baby Boomers – nascidos entre 1940 e 1959.
Geração X – nascidos entre 1960 e 1979.
Geração Y ou Millennials – nascidos entre 1980 e 1994.
Geração Z – nascidos entre 1995 e 2010.

O primeiro artigo fala sobre dinheiro: no texto “How Family Businesses Can Navigate The Greatest Wealth Transfer In Human History”, publicado na Forbes em 10 de setembro, Andrew Weinberg menciona um estudo que concluiu que estamos em meio à maior transferência de riqueza da história humana.

Os Baby Boomers dos EUA deverão transferir US $ 30 trilhões em riqueza para as gerações mais jovens nos próximos anos. Cerca de 45 milhões de famílias norte-americanas irão transferir US $ 68 trilhões em riqueza nos próximos 25 anos, com a grande maioria indo para seus herdeiros. Quase US $ 9 trilhões, ou metade do PIB dos EUA, serão transferidos apenas nos próximos 7 anos.

O segundo artigo está na The Economist da semana passada. Com o título “Generations and the election”, a revista comenta a eleição americana e a idade média dos eleitores, concluindo que a votação de novembro marcará uma troca de gerações. Será a primeira com mais eleitores abaixo dos 40 anos, e daí vem um comentário meu, e não da revista: me parece um erro estratégico dos Democratas nomear um candidato de 78 anos para tentar derrubar a reeleição de um Republicano apenas 4 anos mais novo.

Obama foi eleito aos 47, Clinton aos 46 e a média histórica é 55. Trump assumiu aos 70, o mais velho da história, e concorre à reeleição com 74. Ao escolher um candidato de 78 anos em uma eleição com um eleitorado mais jovem, os Democratas transformaram uma desvantagem de Trump em vantagem. Mas, isso fica para uma outra discussão.

A eleição de 2018 nos EUA, que trocou parte do Senado e toda a Câmara, foi a primeira com maioria de votantes do grupo mais jovem, e os Democratas, supreendentemente, reconquistaram a maioria. O artigo da The Economist atribui parte desse fato à juventude do eleitorado.

Temas que ganharão importância

Os dois artigos referem-se aos Estados Unidos, mas em termos de tendências, são universais, pelo menos no Ocidente. Desde os anos 1990, a política, o poder e o dinheiro do mundo estiveram nas mãos dos baby boomers. Em quantidade de pessoas, essa dominação acabou no ano passado, e o tempo agora transferirá poder, dinheiro e outros símbolos de domínio.

Fazendo uma grande sumarização dos dois artigos, um mundo dominado por millennials dará mais importância a alguns temas que antes recebiam menos atenção. Gerações mais jovens diferem de seus patriarcas em atitudes, etnias e educação, e isso deve impulsionar algumas questões:

Digitalização e aquecimento global são as principais tendências apontadas.

Os millennials são a primeira geração de nativos digitais e o tema foi ainda mais impulsionado pela pandemia. Os mais velhos acham que há um exagero e uma bolha na onda digital, os mais jovens apostam todas as fichas nisso. É preciso sabedoria para não cair no modismo e nem para ignorar o potencial da tecnologia – as duas gerações terão que achar a melhor combinação para os seus negócios.

Sobre a o clima e a natureza, vem aí uma geração que acredita mais fortemente que a ação do homem influencia o clima do planeta, e algo precisa ser feito. Fato é que não há mais como ignorar os temas ambientais. Os balanços trimestrais das empresas refletem essa preocupação crescente, e siglas como ESG (Environmental, Social and Governance) ganham cada vez mais importância. Na mesma edição, a The Economist rotula que Joe Biden, de olho nos mais jovens, quer se posicionar como o candidato que quer salvar o planeta.

Tecnologia e meio ambiente lideram as discussões, mas o Millennials também acendem outras agendas. É uma geração mais liberal em costumes, que aceita com mais naturalidade o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e que tenderá a praticar maior cobrança em relação à atuação dos governos e uma tendência de impor limites ao capitalismo.

Outra questão importante é a diversidade étnica. Os mais jovens são, de largada, mais propensos a representar alguma minoria. Nos EUA, 75% das pessoas acima de 60 anos são brancas, mas metade dos americanos de 20 anos não são. Será preciso fazer mais, ir além nas questões raciais.

Por fim, incluo uma tendência que eu enxergo e que não aparece nos artigos: vejo as gerações mais jovens com uma visão de negócios mais pulverizada. Colocando de forma exagerada, faço um contraste entre um empreendedor que colocou todos os ovos na mesma cesta e dedicou 60 anos de sua vida a um só negócio e, de outro lado, um empreendedor em um mundo com mais opções, envolvido em vários negócios, com menos apego emocional e risco mais pulverizado. Não há julgamento de melhor ou pior aqui. Quem tem 30 anos hoje viveu um mundo de mais calmaria e muito mais oportunidades do que os seus pais e avôs.

Impacto nas empresas familiares

Nos próximos 10 anos, a riqueza da geração millennial será quintuplicada e muitos assumirão cargos de liderança, o que traz uma inevitável tensão com “o velho jeito de fazer as coisas”. Qual o impacto desse choque cultural e de poder entre gerações em milhões de empresas que, planejando ou não, passarão por uma mudança de controle?

Me parece fundamental não brigar com as mudanças, não querer julgá-las ou discutir se faz sentido dar mais atenção ao tema X ou Y. As famílias devem entender que essas diferentes visões existem e trabalhar em conjunto para se posicionar de uma forma benéfica para todos. Melhor do que discutir quem tem razão ou quem manda mais é entender o que dá para tirar de melhor de cada geração.

O autor do artigo da Forbes traz dados alarmantes sobre os rumos dessa negociação entre gerações. O texto cita uma pesquisa recente da Deloitte, que concluiu que apenas 1/3 das famílias concorda que os objetivos do negócio se alinham aos da família e menos de 1/3 concorda totalmente sobre os rumos do negócio.

Como consequência, a transferência bilionária de riqueza será acompanhada de um número igualmente histórico de empresas familiares que trarão sócios e executivos de fora ou venderão 100% de seus negócios. Isso explica os números superaquecidos do mercado de private equity de empresas médias.

Também não podemos nos esquecer que empresas familiares devem se preparar para os desafios do futuro, o que, por sinal, não é um assunto novo. Hoje temos nomes bonitos para tudo, mas a troca de poder e dinheiro entre gerações ocorre – e é difícil – há séculos.

Uma vez perguntei a um CEO de 2ª geração nascido na década de 1950 como tinha sido a transição do negócio dos pais para ele e os irmãos. “Difícil, meu pai era muito resistente, estava velho e eu, cheio de ideias e energia…”.

Perguntei, em seguida, quais frases ele conseguia se lembrar que marcaram aquelas discussões, e ele trouxe poucas novidades: “vocês jovens querem mudar tudo”, “eu fiz tudo isso por vocês”, “enquanto eu estiver aqui eu que mando”, e do outro lado, “até quando vocês vão me tratar como criança?”, “o mundo está mudando e a empresa precisa mudar”.

Ao perceber que as mesmas frases estavam se repetindo, o cliente entendeu a ideia que estou tentando passar nesse artigo: não adianta brigar com as mudanças entre gerações, o caminho é buscar uma visão em comum para o futuro – sempre para o futuro.

O caminho para o sucesso

Millennials e Baby Boomers viveram praticamente em planetas diferentes e, agora, precisam encontrar um caminho em comum para o futuro, passando por todas as questões internas da sucessão, da governança e do patrimônio e pelos temas externos aqui expostos – aquecimento global, diversidade, tecnologia, entre vários outros.

Como passar por isso tudo, mantendo a harmonia e a riqueza com a família?

Costumo dizer que mais da metade do sucesso depende das crenças e ações do fundador ou controlador. Eu poderia escrever muitas páginas sobre sucessão mas, no final do dia, o que decide mesmo é como o atual dono enxerga o processo.

É o que eu chamo de vestibular da sucessão. Como a família se sai nas seguintes perguntas:

O negócio da família é um investimento pessoal, que existe para agradar ao dono? Ou é um empreendimento maior do que o seu dono e que precisa e deve ser mantido?

O controlador aceita a ideia de que planejar o futuro é uma parte fundamental de sua responsabilidade, e que isso é um processo que precisa de dedicação, ajuda, envolvimento da família e que leva tempo?

Se a família não passar pelas questões acima, dificilmente construirá um plano capaz de mesclar o melhor das gerações e garantir a continuidade do negócio. O melhor cenário, nesses casos, é um evento de liquidez, que transforma a empresa em dinheiro, ou a presença de um sucessor bem preparado e que aguenta esperar a sua vez para continuar, ou recomeçar.

O processo é difícil e causa muita destruição de valor, mas algo que me deixa otimista é que estamos em um mundo com mais recursos e informação. Há cada vez mais consultores, cursos, podcasts, programas e palestras sobre sucessão e empresas familiares.

Os artigos aqui mencionados falam dos Estados Unidos, mas Brasil e Portugal têm algo como 8 milhões de empresas familiares passando pelo mesmo processo. Todos nós envolvidos nesse tema temos a missão de ajudar a manter toda essa potência gerando empregos, negócios, impostos e famílias em harmonia.

Gustavo Sette da Rocha
linkedin.com/in/gustavosette| www.generations.pt
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